Hipócrates era um Homeopata?

by Jan Willem Nienhuys<skepsis@wxs.nl>


De acordo com alguns homeopatas, sua arte remonta a Hipócrates. Isto não é meramente uma tática de curandeiros alternativos de datar suas artes em tempos imemoriáveis. Algo parecido pode ser encontrado nos trabalhos de Hahnemann. Mas isto não é verdade.

Em pelo menos uma fonte (um livreto de 1899, escrito por um farmacêutico de nome Knufman) pode-se ler a primeira aplicação da homeopatia no caso do Rei Grego Telephos. De acordo com a mitologia Grega Telephos foi ferido durante as preparações para guerra de Tróia, pela lança de Aquiles. Supostamente ele foi curado após Apolo aconselhar a tratar o ferimento com alguma ferrugem[1] da lança de Aquiles. Este curso precede Hipócrates, mas não é certo de que esta história reflita alguma prática clínica efetiva.

Hipocrates fundou a ética médica. De acordo com ele, pacientes precisavam ser capazes de confiar nos seus médicos, e médicos por seu turno precisavam merecer tal confiança. Eles precisavam ser dedicados e competentes, ajudar quando possível e ao menos não prejudicar. Eles necessitavam não usar o método dos charlatões, entre eles a falsa propaganda. Aos olhos de Hipócrates doenças tinham uma causa natural, e curas sobrenaturais não faziam sentido. Medicina precisava contar com uma observação cuidadosa.[2]

No início do último século (XIX) um paciente geralmente ficava feliz se conseguia ficar fora das mãos de um médico. Os tratamentos Médicos (venenos e sangrias) eram às vezes muito prejudiciais à saúde. Hahnemann introduziu três inovações em medicina, principalmente uma anamnese completa [3], monoterapia[4] e um niilismo médico. Em outras palavras, a idéia que alguém podia administrar a uma pessoa doente uma droga em uma dose cuidadosa, e preferentemente possuindo nada de material é toda de Hahnemann. A terceira idéia (não dando nenhum medicamento) foi praticado mais tarde por Ernest Schweninger[5], mas isto não é muito popular com pacientes e companhias farmacêuticas, e tristemente, nem com muitos seguidores de Hahnemann.

Hahnemann propôs o princípio do Semelhante. Que diz que para curar uma pessoa doente, se precisa procurar algo que provoca sintomas similares numa pessoa sadia. Isto, preferentemente diluído, irá curar a pessoa doente. Hahnemann apoiava esta idéia pela própria observação e preferencialmente fantásticas quantias de experiência em velhos médicos, os quais ele pegou como prova que os anciãos tinham às vezes sido capazes de obter um vislumbre desta verdade. E não posso resistir de mencionar que alguma coisa como o princípio do semelhante, notadamente o tratando dos ferimentos causados por arma de fogo pela infusão de óleo fervente foi abolido por Ambroise Pare em 1937, para grande alívio de muitos soldados.

Tratamento Hipocrático.

Os escritos Hipocráticos compreendem cerca de 60 tratados, escritos por muitos autores. A mais completa edição data do último século: dez volumes de textos Gregos e notas de rodapé, índice e tradução francesa. Nãonada à cerca do princípio do Semelhante neles. Na visão de Hipocrática as doenças eram causadas por muito ou pouco calor, frio, umidade, secura. Os intestinos eram para ser limpos por Heléboro (Helleborus niger). Isto é: as raízes de Heléboro ou de Veratrum (um tipo de lírio), veneno potente que provoca vômitos ou produz diarréia tão rápida que o paciente eventualmente sobrevivia ao tratamento. Por muitos séculos este "tratamento natural" foi usado em combinação com sopa de cevada, vinho, mel e vinagre. Alumen, salitre, óxidos de chumbo e cobre foram usados para "secar" ferimentos (parar supuração). No caso de muita umidade, alho, cebola ou alho-poró, foram usados (entre outros), como diuréticos. Mulheres com halitose foram recomendado escovar seus dentes com rato torrado e lebre misturado com mármore triturado. Queimaduras eram para ser tratadas com raízes de carvalho cortada fervido em vinho branco, ou com pomadas que possuíam gordura e marga[6] como ingredientes principais.

Muitos escritos Hipocráticos não possuíam nenhum remédio específico, e os tratamentos normalmente compensavam a idéia de falta ou excesso de calor ou umidade.

Dois textos Hipocráticos

Hahnemann cita a passagem de Peri topoon toon kata anthroopon (The places in man), que segue como a seguir (minha tradução).

"Dores se tornam sadios pelos opostos; para cada doença existe alguma coisa apropriada, assim, aquilo que é quente pela natureza, mas adoecido pelo frio, há algo que o esquenta, e assim por diante. Existe uma outra maneira: pela matéria similar (homoia) uma doença aparece e pela administração de coisas similares ela recupera a sua saúde da doença, pelo meio da mesma causa a estrangúria (isto é: urinar com dor e dificuldade) que não era antes, e quando isto para pela mesma coisa (hupo toon autoon). A febre causada pela flegmasia[7] (umidade em demasia) aparece e desaparece uma hora pela mesma (hupo toon autoon) e em outro momento pelo oposto de sua causa."

Uma afirmação análoga deriva do tratado sobre a Doença Sagrada, Peri hierès nousou. A Doença Sagrada é qualquer coisa que pode causar ataques, delírios, tremores e espuma na boca, como pneumonia, epilepsia e muitos traumas do cérebro, incluindo derrames, tumores e ferimentos. Desta maneira, asma e a "doença sagrada" são ambas causada por excesso de lodo pré-natal, a diferença é que na asma ela vai para os pulmões e na "doença sagrada" para o cérebro. No fim do capítulo nós encontramos:

"Cada (doença) tem a sua natureza e força característica e nenhuma é intratável e sem esperança. As maiorias dos casos podem ser curadas pelas mesmas coisas (tois autoisi) que as causam. Porque uma é alimento para outra, mas para outras coisas de novo piora. Assim é necessário que o médico conheça como ele, quando observa o momento crítico, em cada caso [do enfermo] irá dar alimento para um e fortificá-lo, e não dar para outro e enfraquecer [a doença].

Nestas doenças como em outras, é necessário não aumentar a doença, mas exaurir para fora rapidamente pela aplicação da maior inimigo dela, e não [dar-lhe] alguma coisa apropriada que esteja acostumada."

Exegesis

Eu tentarei explicar estas notas, com a ajuda do (entre outros) Joseph Schumacher (professor de história da medicina).

Hipócrates meramente disse que dependendo das circunstâncias alguma coisa pode aumentar ou diminuir a doença. Por exemplo, a estrangúria (uma aflição de um órgão quente) é algumas vezes causada pelo calor (inflamação) e algumas vezes um banho morno será um bom tratamento. Talvez a passagem também signifique que algumas doenças podem ter causas A, B, etc., e que combatendo a causa B pode consistir do tratamento com A.

Qual é a causa da tosse? Em Peri Fysoon (Ventos) nos encontramos que vento (ar) pode perturbar a circulação de fluídos na cabeça, e esses fluídos podem vir de todo o tipo de lugar, por exemplo, muco que flui dos pulmões e causa tosse, através disto produzindo inflamação da garganta. A garganta atrai umidade e se torna quente. Em outras palavras: a tosse é causada por muita umidade ruim no local errado. E isto é curado por banhos quentes e bebendo mais líquidos. Portanto esta causa de expulsar o fluído ruim pelo fluído bom, nada de um tratamento que causa tosse em uma pessoa sadia.

Similarmente para muita comida pode causar distúrbio intestinal para uma pessoa debilitada, neste caso comida é ainda a melhor cura. O doutor precisa julgar cada caso separadamente se trata a diarréia com jejum ou com comida. Em todos os casos o médico precisa conhecer a causa profunda da doença.

Algumas pessoas pensam que "homoios" e "autos" meramente significa "combinando", "do mesmo tipo". Assim que a primeira nota acima meramente diz que a causa e remédio pertencem à mesma classe. Se a causa é "muito quente ou muito frio", o remédio precisa ser do mesmo tipo; ferimentos, entretanto necessitam tratamento cirúrgico e o resultado de alimentação errada pode ser resolvido pela dieta.

Três citações mais

A primeira edição do Organon de Hahnemann refere do Epidèmioon to pempton (Epidemias V). É sobre um homem que vomita e também tem uma diarréia severa (cólera?) Este homem foi tratado com Heléboro, em combinação com água de lentilha e lavando suas partes inferiores. Então ele se recuperou. Uma cura Hipocrática corriqueira: sopa de lentilha é purificador, e Heléboro por sua vez é suposto drenar para fora as substâncias maléficas. Deste modo Hahnemann pensa que este desafortunado ateniense foi curado mais pelo Heléboro do que apesar deste.

No livro sobre doenças internas (Peri toon entos pathoon) uma descrição é fornecida para edema causado por beber uma quantidade de uma coleção de água da chuva estagnada durante uma longa caminhada. Parte do tratamento recomendado é permitir ao paciente beber ainda mais da mesma água, para desarranjar seus intestinos e causar uma "limpeza por baixo".

Finalmente, o apêndice de Peri diaitès oxeoon (Dieta para doenças agudas) diz: "alho causa flatulência, calor no peito, leveza na cabeça, desconforto, aumenta as dores crônicas, mas a coisa boa é que aumenta a urina. O melhor momento para comê-lo é quando estiver bebendo muito ou estiver bêbado []". Agora você pode se maravilhar com o princípio do Semelhante. Parece que alguns homeopatas explicam isto como segue: beber causa ressaca, alho causa dor de cabeça, então a recomendação de "alho para bebedeira" mostra que Hipócrates aplicava o princípio do Semelhante. Para mim, isto mostra que alguns homeopatas não podem ler, porque o texto certamente não possui qualquer aplicação consciente ao princípio do semelhante, e se alho é benéfico para bebedeira é duvidoso; se ele é realmente um diurético alguém pode pensar que uma dor de cabeça irá mais piorar do que melhora.

Conclusão

A afirmação de que Hipócrates aplicava o princípio do semelhante é a mesma relação que propor que Shakespeare (Ser ou não ser) foi o fundador do existencialismo. Realmente, a passagem diz que o médico não olhe para os sintomas, mas também para as causas subjacentes. O que contradiz o método homeopático olhando para muitos sintomas de relevância duvidosa.

Os méritos de Hahnemann não repousam numa analise crítica de textos antigos. Seus seguidores tratam suas palavras como um tipo de escritura sagrada. A imitação sem analise ou cuidado de trechos fora do contexto são uma marca da pseudociência e do oculto sem sentido. E a proposição de que Hipócrates tinha alguma coisa com homeopatia é justamente uma propaganda falsa.

Nota para o Skepsis-site

Este é um sumário de um artigo holandês mais longo escrito por ocasião de um panfleto distribuído pela Royal Dutch Association of Pharmacists (KNMG) destinado a providenciar informação objetiva sobre homeopatia. Entre outras coisas é repetida a mentira sobre Hipócrates. Nem a versão Holandesa e nem a Inglesa haviam sido publicado antes.

Literatura

Samuel Hahnemann, Heilkunde der Erfahrung. In: Kleine medicinische Schriften. Gesammelt und herausgegeben von Ernst Stapf, Zweiter Band, In der Arnold'schen Buchhandlung, Dresden und Leipzig, 1829. Originally appeared in: Journal der practischen Arzneykunde und Wundarzneykunst (Hufeland's Journal), vol. 22 (3), 1805.
Samuel Hahnemann, Organon der Heilkunst, Zweite Auflage. In der Arnoldischen Buchhandlung, Dresden, 1819.
Hippocratic Writings, G.E.R. Lloyd (ed.), Translated by J. Chadwick and W.N. Mann, Penguin Books, London etc., 1983.
Oliver Wendell Holmes, Homeopathy. In: Examining Holistic Medicine, Douglas Stalker and Clark Glymour (ed.), Prometheus Books, Buffalo, New York, 1989, p. 221-243. Originally two lectures from 1842.
Emile Littré, Les &oelig;uvres complètes d'Hippocrate, traduction nouvelle avec le texte grec en regard (10 vols.), Paris, 1839-1861. Fotomechanical reprint Adolf M. Hakkert, Amsterdam, 1979.
Arthur Lutze, Samuel Hahnemann's Organon der Heilkunst, Sechste Auflage, Verlag der Lutze'schen Klinik, Coethen, 1865.
Guido Majno, The Healing Hand. Man and Wound in the Ancient World. Harvard University Press, 1974.
Joseph Schumacher, Die Anfänge abendländischer Medizin in der griechische Antike, W. Kohlhammer Verlag, Stuttgart, 1965.

Caixa de texto: Temos que reconhecer que nenhum conceito hipocrático possui alguma relação com a invenção de Hahnenann. Enquanto Hipócrates tem o mérito de ter conceituado as doenças como resultado do mundo natural acessível ao conhecimento e a racionalidade, Hahnemann volta a uma época anterior em que os males eram sobrenaturais e místicos, atribuídos a causas espirituais. Neste sentido, Hipócrates sempre defendeu o uso dos medicamentos pelos seus efeitos conhecidos e não por sua ação improvável. 
Hipócrates foi um profundo observador dos doentes, enquanto Hahnemann passa a apregoar a observação de pessoas sadias artificialmente adoecidas. Abandona totalmente a ciência médica e passa a combater o estudo das ciências básicas. Apega-se unicamente ao seu método e se separa totalmente da medicina da época que passa a chamar de alopatia: um sofrimento acrescentado a outro sofrimento. Ao contrário de Hipócrates, desconsidera a necessidade de qualquer entendimento da doença.
A diluição infinitesimal é uma condição necessária para que toda ação do medicamento seja extinta para não atrapalhar o efeito placebo. E a sacudida tem o fim de iludir o homeopata e o paciente de que algo mistérios ocorre quando se bate com o vidro da solução contra um objeto. A idéia moderna de que isto esteja alterando a composição quântica da matéria/energia só mostra o quanto são capazes de fantasiar e de não entenderem os fundamentos científicos. 
N.T.
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

"For the same object the experienced allopath delights to invent a fixed name, by preference a Greek one, for the malady, in order to make the patient believe that he has long known this disease as an old acquaintance, and hence is the fittest person to cure it" ORGANON, PREFACE TO THE FIFTH EDITION



[1] É incrível que isto seja considerado tratamento semelhante. Um corte tratado pelo ferro da faca! Este costume seria danoso não pelo risco de transmissão de tétano, como pela inutilidade de se colocar óxido de ferro no ferimento. Mas não existe nenhuma relação com o princípio do semelhante de Hahnemann.

[2] A observação cuidadosa era para entender os mecanismos das doenças para chegar ao seu entendimento e assim, descobrir as causas e seu tratamento em base racional.

[3] Devemos alertar que a anamnese de Hahnemann evita o diagnóstico em todos os seus campos médicos: fisiológico, fisiopatológico, sindrômico, etiológico. busca encontrar as palavras constantes no Repertório.

[4] A monoterapia não se mostrou útil nem mesmo para o uso do placebo homeopático, pois sues praticantes tinham dificuldade de encontrar descrições semelhantes ao que o paciente relatava, sendo usado a associação para mesclar mais de uma preparação para facilitar encontrar os sintomas. Em medicina nunca teve sentido.

[5] Ernest Schweninger (1850-1924), médico respeitado que tratou Bismarck. Schweninger era essencialmente um médico hipocrático, da personalidade forte, para quem a saúde do paciente era o objetivo principal da intervenção do médico. Considerou o Nil nocere (não prejudicar) como um interesse preliminar, e seus tratamentos eram essencialmente dietas, massagem e hidroterapia. Este médico exerceu um papel autoritário forte no tratamento, e o paciente era obrigado a obedecer cegamente; somente tal doutor poderia ter tratado Bismarck, chanceler poderoso. Schweninger prezava ambos os efeitos da sugestão no progresso do tratamento, e os princípios éticos de cuidar dos melhores interesses do indivíduo vivo.

[6] Rubrica: geologia. tipo de solo cimentado resultante da mistura de um solo argiloso com carbonato de cálcio; marna [Aproveitável na olaria e tb. como corretivo de terras, dada a presença, entre seus componentes, de elementos fertilizantes, como a cal e o potássio.]

[7] Rubrica: medicina. Diacronismo: obsoleto. inflamação e febre

tes>: medicina. Diacronismo: obsoleto. inflamação