O apanhador no campo dos sintomas

 

 

O Dr. Vitor Menescal, do Instituto de Homeopatia James Tyler Kent, escola que possui a visão kentiana das doenças e que é assessorado pelo prof. Alfonso Masi Elizalde, da Argentina, escreveu o artigo Enfermo, Enfermidades e Sintomas [1], inspirando-se na obra do escritor norte americano Jerome David Salinger[2], colocou um sub-título de O Apanhador no Campo de Sintomas.

 

Como ocorre para Kent e Elizalde, para Menescal os sintomas deixam de ser sintomas para passarem a ser algo a ser interpretado. Acrescentado agora, à subjetividade do paciente, toda a subjetividade do praticante. O Repertório não pode ser utilizado diretamente, pois deve passar antes pela idéia e adivinhação do homeopata antes de ser realmente levado ao livro de prescrição. Fugindo da objetividade da moderna medicina científica, se usa a tentativa de descobrir dentro das palavras fenômenos ocultos para interpretar de forma divinatória o quadro, a drug picture [3] do indivíduo para se encaixar naquilo que ele interpreta ser o quadro da droga. Deixa-se de pisar no terreno da objetividade, da demonstração, da evidência para se tentar acertar um diagnóstico mais subjetivo ainda. Não mais se pensa de forma pseudocientífica, de uma ação drogal mágica agindo pelo princípio da ação primária e secundária mas passa a ter cada sintoma sua própria e total subjetividade. O uso apregoado do Repertório ser usado pela descoberta dos sintomas correspondentes passa a ser considerado umvício repertorial”. A “ilusão de ser insultado” do Palladium, por exemplo, é inteiramente diferente de Alcoholus. Então o sintoma não mais possui uma determinação na prescrição, uma hierarquia, mas uma mensagem oculta que deve ser descoberta, adivinhada, interpretada. E como nãoindivíduos sãos miasmaticamente”, ou seja, não há o almejado equilíbrio vital, todos podem e devem ser tratados com os maravilhosos preparados perfeitos placebos que sempre promovem curas espetaculares dentro deste efeito universal, a verdadeira e única lei universal da homeopatia que se consegue em TRIALs.

 A semelhança com o personagem adolescente do livro O Apanhador no Campo de Centeio é muito correspondente. Primeiro, por não ter uma base científica, mas apenas literária, romântica, oculta. E a forma de praticar a clínica é tão irracional como o perdido personagem do livro vivia. Deve ser muito apreciado o autor pela sua adesão leiga a prática homeopática, o seu consumo da própria urina e a sua vida mental precária, conforme relata sua filha [4].

Eu vejo, tomando a liberdade literária do autor, mais semelhança com o título de Milan Kundera, A Insustentável Leveza do Ser. A total subjetividade da doutrina voltada para si, como o personagem principal do romance, alienado na busca de seu egoísmo próprio alheio ao mundo político (científico) em volta que demonstra a sua impossibilidade total. Além da vantagem de termos, no caso do filme, Juliette Binoche para nos encantarmos.

 

                                                           

 

 

 

 

 

 



[1]  01 - Enfermo, Enfermidades e Sintomas

 http://www.ihjtkent.org.br/artigomed1.html

[2] O apanhador no campo de centeio.

[3] Homeopathic Drug Pictures by Margaret Lucy Tyler

http://ravencraft.zoovy.com/product/BKGH

[4] Dream Catcher

Paizinho querido

Margaret Salinger

VEJA Edição 1665- 6 setembro 2002

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