Sarna,
a Psora na história


RESUMO DA
TEORIA DA SARNA REPRIMIDA
"[A razão sem ajuda não pode conhecer nada por si mesmo (a priori)]… Se na sua operação ela for desviada
por um simples passo na sua condução em direção da percepção, se perderá a si mesmo na região ilimitada da
fantasia e da especulação arbitraria, a mãe da ilusão perniciosa e da absoluta inutilidade"
What Is Psora?
Desde
a antiguidade que a sarna
acompanha os homens e os animais
de todo o tipo. Hoje
em dia temos um
pouco de dificuldade para
raciocinar neste aspecto, devido
ao controle mais ou
menos razoável da mesma
no homem. Até mesmo
muitas vezes não
pensamos no seu diagnóstico
por apresentar-se atípica
e não ocorrer tão
freqüente em alguns
meios.
O termo
[i]
vem do latim, também chamada
entre nós de escabiose, do termo
latino escabies: aspereza, rugosidade com
variação de biose. Psóra
vem do grego, doenças
de pele, que originou
o mesmo termo em
latim. O termo
incluía todas as doenças de pele
com vários aspectos,
não sendo conhecida
as suas origens no início
e consideradas todas a mesma coisa
.
Na Alemanha era chamada
de Krätze,
na França de la gale, na
Espanha também sarna, na Itália de scabbia, em
inglês de mange, itch
mite, scabies. Também
o termo psoríase
deriva da ocorrência
de coceira da pele.

Uma pessoa
infestada com sarna podia evoluir
por anos, lesionando
a pele pela doença
e levando à infecção secundária, cuja
origem biológica diversa
não era suspeitada pela
total falta de conhecimento
na época. Os doentes podiam evoluir
para septicemia, bacteremia, erisipela, furúnculos,
piodermas, abscesso cutâneos,
granulomas piogênicos, aspereza
da pele, xerodermia, liquinificação, traumatismo pela
coçadura com as unhas
ou outro instrumento
mais agudo, piorando
o aspecto e levando a mais infecção,
lesões nos órgãos
genitais, saída de secreções
serosas e serossangüíneas, eritema
marginado, nódulos ganglionares e fleimões, pseudoictiose, crosta ricas em
parasitas, cronicidade
de edemas nos membros,
lesões dos rins, doenças
valvulares cardíacas, endocardite, meningite,
dança de São Guido, dança
de São Vito, remelexo
(pop.) e (bras., Amaz.) caruara, dores nas juntas
incapacitantes, poliartrite,
artrite séptica, osteomielite, infecções
gastro-intestinais, lesões
purulentas e pruriginosas. Ela sujeitava
o paciente à piora da
resistência imunológica, ficando propensa
a doenças da época, micoses
cutâneas e sistêmicas, doenças comuns
como tuberculose, também
ainda desconhecido
o seu agente causal,
como pneumonias, diarréias.
Padecia ainda de alergias
superajuntadas ao quadro.
Muitos médicos
consideravam a lepra da mesma origem,
como evolução natural
da mesma. A idéia de que
temos hoje em dia
não consegue atingir o drama
desta doença para a época.
Uma enfermidade de fácil
propagação, de difícil
controle, senão impossível,
e que sujeitava os pacientes
à males crônicos e progressivos,
conforme a imunidade,
susceptibilidade pessoal de cada
um, o estado
nutricional, as medidas de higiene
que eram mal empregadas,
pois se desconhecia totalmente a origem
e a associação com
outras causas secundárias que
levavam a esta evolução.

Os tratamentos
da época não podiam curar,
pois na maioria não
tinham por objetivo matar
o parasita por total
desconhecimento do mesmo
por parte dos médicos.
Muitas vezes, na crença
de que seria uma origem
no sangue sujo,
recorria-se à sangria no intuito
de purificar o sangue. Emplastros
e agressões à pele doente
e contaminada muitas vezes deviam piorar
o quadro. O reconhecimento
da piora às vezes
devia passar desapercebido, pois
se desconhecia a história natural
dela, das complicações e dos tratamentos
utilizados. Outros parasitas
conviviam com o homem
como os piolhos e as pulgas,
moscas e mosquitos,
reconhecidos pelo aspecto macroscópico.
Acrescente-se a fasciola hepática,
triquinose, teníases, bernes
e bicheiras. Ratos
conviviam nas dispensas e nos
estábulos. Mas por
não contarem com tratamento
adequado, eram tolerados como acompanhantes
indesejáveis. As noções
de higiene e alimentação
eram muito precários,
piorando o aspecto da evolução da
mesma. Além da idéia
comum na época de que
fossem advindos de castigos por
má conduta moral ou
castigo de Deus.
Portanto, era
um quadro que
além de proporcionar um
grande sofrimento, incapacidade
laboral, contaminação familiar
e da comunidade, requeria do médico
um conhecimento que
ele não tinha.
Era realmente um
quadro sério,
misturado com uma série
de entidades que se
sobrepunham ao aspecto clínico. Para
piorar esta situação, foi a época
das guerras napoleônicas nesta região.

É neste aspecto
que devemos visualizar Samuel Hahnemann (1755-1843) se
deparando com este quadro
trágico no fim do século
dezoito, início do dezenove. Um
quadro clínico complexo,
crônico e grave. Os resultados
dos tratamentos na época não
mudavam muito a evolução
da mesma. E é isto que
ele descreve na sua conceituação
de psora[ii]
no Tratado de Doenças
Crônicas .
Inclui sinais e sintomas
de uma série de quadros
nosológicos médicos misturados
para a formação da sua
nosologia própria : o
miasma , doença
única no início,
acrescentando a psora,
a sycose e
a syphilis posteriormente
.
A psora
seria a principal doença advindo do miasma
crônico de origem não
venérea. Nela ele
inclui praticamente tudo, atribuindo ser
a sarna (Krätze) a
origem de tudo .
Hahnemann já
havia, em 1790, desenvolvido
a teoria do similar,
na sua falácia
do uso da China
em si mesmo.
Em 1801 defendia que a simples diluição aumentava o efeito do remédio .Publicara
um pequeno ensaio, 'On the Effects of Coffee from Original Observations' [Die Wirkungen des Kaffee's] (Leipzig, 1803) que daria as
primeiras tintas
da sua teoria que viria a se chamar de psora
(1828) como sendo causado pelo consumo de café
(Coffea arabica) . Em
1810 publicara a primeira edição
do seu livro máximo,
o ORGANON . Para
justificar a sua teoria,
já abandonara e
combatia a patologia e a nosologia
científica. Afirmara, em
mais uma de suas falácias,
que a doença não
era para ser entendida,
mas para ser tratada
apenas .
Estabelecera a idéia de que
os medicamentos teriam uma ação dinâmica, like-spirit, imaterial.
Desconhecia na época a ação bioquímica
dos medicamentos e atribuía a eles
esta ação, não mágica,
mas por analogia
imprópria, com as propriedades
magnéticas ou com a energia
da mecânica gravitacional
dos planetas. Portanto,
o efeito curativo não
era etiológico, mas
numa fantasia
que
fazia da ação dos mesmos .
Daí que ele parte
para a diluição e
finalmente vinte e cinco
anos após ,
a dinamização , que
seria a forma de retirar esta "energia
curativa", esta energia
dinâmica, like-spirit,
da medicação bruta, na crença
falaciosa de que a ação
medicamentosa seria apenas dinâmica
e seria isolada pelo sacolejar violento
na diluição .
No seu
entendimento, a doença também
era devido à
contaminação da "energia dinâmica"
da doença na "energia vital"
da pessoa, a principal causa
da mesma, pois não
reconhecia a causa etiológica (Tollen causam) e nem
a causa material (Materia peccans) . Já
em 1803 tinha está idéia
de transmissão à distância
dos males em relação
aos bebedores de café .
Exemplifica isto novamente
ao escrever na Sexta Edição
e última do Organon
(1921), escrito no fim
da vida já vivendo em
Paris (1843), que uma criança
com varíola ou
sarampo passa para
a outra sadia por
efeito "dinâmico" da doença,
como um ímã
transfere para uma agulha de aço
o seu magnetismo sem,
contudo, nada de material
ter sido transferido entre elas.
Praticante de mesmerismo , pois
era adepto das teorias
de Franz Anton
Mesmer (1734
- 1815), na crença de que
esta "energia" podia ser
transferida do terapeuta equilibrado para
o paciente carente
pelas mãos movimentando-se (capítulo
288 , sexta
edição Organon) .
O parasita
da sarna havia sido reconhecido cientificamente
em 1834 por
Simon François Renucci, nascido na Córsega, realizado
na Sorbone, mas
continuava a não ser aceito por
muitos médicos. Hoje
em dia temos uma compreensão
maior da convivência
generalizadas com os ácaros
em muitos meios,
desde os úteis a vida
humana aos causadores
de doenças em nós
e nos animais. Até
mesmos existem ácaros
parasitando ácaros. Lesões
da pele pela penetração
do minúsculo aracnídeo,
fazendo túneis para desovar
e para se alimentar, lesavam a pele,
eclodindo os ovos aumentava a infestação,
deixando-a desprotegida pela presença
do estafilococos
e estreptococos
penetrarem no organismo por
aí.

Apesar
de Anton van
Leeuwenhoek (1632-1723) ter iniciado
a investigação do mundo
microscópico, a presença das bactérias
como entidades oportunistas
era ainda muito
mais desconhecida. Pois
a sua identificação por
Pasteur e seguidores se daria só
a partir de 1879, mas a sua
total importância
clinica ainda levaria muitas décadas
para ser totalmente
entendida .
Inicia-se a criação da microbiologia
nas faculdades. Sir Alexander Fleming (1881-1955),
bacteriologista do St. Mary's Hospital, de Londres, só
descobriria a penicilina acidentalmente
em 1928 . Mas
só em 1940 atingiria
a produção industrial.

Estes
agentes seriam os principais
causadores da ação desastrosa
para a saúde ao ocasionarem a
infecção
de pele, cardiopatia
reumática, endocardite, febre reumática,
coréia de Sydenham, glomerulonefrite
difusa aguda pós-estreptococos, nefrites, pneumonias,
erisipela, escarlatina, sepsis, bacteremia em
que o organismo só
podia contar com a Vis MedicatrixNaturea
para ajudá-lo, pois além
de não serem suspeitados, não
se contava na época com nenhum
tratamento efetivo para
eles. A presença das lesões
e a sintomatologia, que
retornava de tempos em
tempos, davam a idéia
de que algo havia
sido acrescentado ao paciente após
ter adquirido a sarna, e acrescentava
realmente, mesmo se esta fosse eliminada do exterior
da pele. Daí a idéia
de que a doença teria origem
"dinâmica", like-spirit,
pois nada podia ser
visto, se nem mesmo
o Sarcoptes,
que está no limite do macroscópico
era entendido. Doenças
sistêmicas ocasionadas por enfermidades de pele levavam a idéia
de que as "doenças" tinham origens internas, se
manifestando para o exterior, pois as lesões
sistêmicas não tinham entendimento
fisiopatológico na época.

Este erro grosseiro
baseado numa epistemologia falsa
levou Hahnemann a elaborar a teoria
da Psora. Hoje
em dia consideramos que
a idéia da sua teoria
ter origem no Sarcoptes seria tola,
mas ao não ter
acesso à epidemiologia, microbiologia,
patologia, fisiologia,
parasitologia, e a gravidade das conseqüências
para a infestação crônica, o
levaram a analisar a realidade deste modo.
Ele via tudo
como uma coisa só.
A sua mente
propensa a fantasias,
a sua idéia de existir
um miasma, sua adoção
do swedenborgianismo, sua
visão deísta para
explicar o mundo, sua
fantasia de mesmerismo de que
fora um grande
propagador ,
de que o "magnetismo"
se propagava de uma pessoa a outra,
sua idéia mágica
da origem "dinâmica"
das reações químicas
e da transmissão das doenças,
do seu afastamento da ciência
e da medicina da época , sua
intolerância a pesquisa
e a tecnologia ,
ao não aceitar opiniões
contrárias , nem
mesmo de simpatizantes
,
levaram a esta teoria mirabolante,
sem contato com
a realidade e que se contrapõe totalmente
com as evidências
epidemiológicas. O que se evidência
pela falta de
reprodutibilidade em TRIALs dos seus
tratamentos.
Ao testar
o Psorinum,
da qual das lesões de
escabiose era retirado o material
purulento contaminado com
estreptococos e estafilococos
para se fazer a solução mãe,
o paciente testado apresentava as doenças
típicas destas bactérias, como
amidalite, doenças de
pele e intestinais. E
quanto mais testada,
é óbvio de que os sintomas
subjetivos e inconsistentes com
a origem bacteriana das doenças
vão sendo acrescentados, pois vai
acrescentando a subjetividade de cada um
dos "testemunhos" chamados provings, chegando a uma média bem
boa da subjetividade coletiva com
550 sintomas
. Mas
nada disto tem valor para
tratar doenças. É apenas
uma falácia. Não tem sentido
tratar pelos iguais e muito
menos pelas semelhantes
subjetividades excêntricas e raras, o princípio do similia similibus curantur.
Hahnemann escreve no ORGANON o termo
alemão de Krätze .
O homeopata David Little
defende que o termo
foi erroneamente traduzido como sarna,
scabies , que
ele não queria usar
este significado na verdade.
Defende que ele
conhecia o agente biológico, mencionando várias referências
disto. O que me
parece inconsistente. Primeiro,
alegar que um
lingüista
usou o termo tradicional de Krätze quando
queria dizer "doença dinâmica de origem vibracional", e resolveu usar
este antigo termo
com amplo significado
tradicional . Segundo,
a entidade, como exposta
no início do texto,
mereceria sim a atribuição
de uma série de malefícios
aos pacientes que
hoje são minimizados pela
evolução social e o entendimento
científico. E, finalmente,
na sua tese na última
edição do Organon, escrita
após o Tratado das Doenças
Crônicas, escrito em
alemão, ele é explicito ao defender
a natureza imaterial
das enfermidades, não
aceitando o ponto de vista da patologia
em nenhum momento
.
O que é seguido pela maioria
dos autores homeopatas
.


