Sarna, a Psora na história

 

 

RESUMO DA TEORIA DA SARNA REPRIMIDA

 

 

"[A razão sem ajuda não pode conhecer nada por si mesmo (a priori)]Se na sua operação ela for desviada por um simples passo na sua condução em direção da percepção, se perderá a si mesmo na região ilimitada da fantasia e da especulação arbitraria, a mãe da ilusão perniciosa e da absoluta inutilidade" [1]

 

What Is Psora?

 

Desde a antiguidade que a sarna acompanha os homens e os animais de todo o tipo. Hoje em dia temos um pouco de dificuldade para raciocinar neste aspecto, devido ao controle mais ou menos razoável da mesma no homem. Até mesmo muitas vezes não pensamos no seu diagnóstico por apresentar-se atípica e não ocorrer tão freqüente em alguns meios.

 

O termo [i] vem do latim, também chamada entre nós de escabiose, do termo latino escabies: aspereza, rugosidade com variação de biose. Psóra [2] [3] vem do grego, doenças de pele, que originou o mesmo termo em latim. O termo incluía todas as doenças de pele com vários aspectos, não sendo conhecida as suas origens no início e consideradas todas a mesma coisa [4]. Na Alemanha era chamada de Krätze, na França de la gale, na Espanha também sarna, na Itália de scabbia, em inglês de mange, itch mite, scabies. Também o termo psoríase deriva da ocorrência de coceira da pele.

 

 

Uma pessoa infestada com sarna podia evoluir por anos, lesionando a pele pela doença e levando à infecção secundária, cuja origem biológica diversa não era suspeitada pela total falta de conhecimento na época. Os doentes podiam evoluir para septicemia, bacteremia, erisipela, furúnculos, piodermas, abscesso cutâneos, granulomas piogênicos, aspereza da pele, xerodermia, liquinificação, traumatismo pela coçadura com as unhas ou outro instrumento mais agudo, piorando o aspecto e levando a mais infecção, lesões nos órgãos genitais, saída de secreções serosas e serossangüíneas, eritema marginado, nódulos ganglionares e fleimões, pseudoictiose, crosta ricas em parasitas, cronicidade de edemas nos membros, lesões dos rins, doenças valvulares cardíacas, endocardite, meningite, dança de São Guido, dança de São Vito, remelexo (pop.) e (bras., Amaz.) caruara, dores nas juntas incapacitantes, poliartrite, artrite séptica, osteomielite, infecções gastro-intestinais, lesões purulentas e pruriginosas. Ela sujeitava o paciente à piora da resistência imunológica, ficando propensa a doenças da época, micoses cutâneas e sistêmicas, doenças comuns como tuberculose, também ainda desconhecido o seu agente causal, como pneumonias, diarréias. Padecia ainda de alergias superajuntadas ao quadro. Muitos médicos consideravam a lepra da mesma origem, como evolução natural da mesma. A idéia de que temos hoje em dia não consegue atingir o drama desta doença para a época. Uma enfermidade de fácil propagação, de difícil controle, senão impossível, e que sujeitava os pacientes à males crônicos e progressivos, conforme a imunidade, susceptibilidade pessoal de cada um, o estado nutricional, as medidas de higiene que eram mal empregadas, pois se desconhecia totalmente a origem e a associação com outras causas secundárias que levavam a esta evolução.

 

Curing

 

Os tratamentos da época não podiam curar, pois na maioria não tinham por objetivo matar o parasita por total desconhecimento do mesmo por parte dos médicos. Muitas vezes, na crença de que seria uma origem no sangue sujo, recorria-se à sangria no intuito de purificar o sangue. Emplastros e agressões à pele doente e contaminada muitas vezes deviam piorar o quadro. O reconhecimento da piora às vezes devia passar desapercebido, pois se desconhecia a história natural dela, das complicações e dos tratamentos utilizados. Outros parasitas conviviam com o homem como os piolhos e as pulgas, moscas e mosquitos, reconhecidos pelo aspecto macroscópico. Acrescente-se a fasciola hepática, triquinose, teníases, bernes e bicheiras. Ratos conviviam nas dispensas e nos estábulos. Mas por não contarem com tratamento adequado, eram tolerados como acompanhantes indesejáveis. As noções de higiene e alimentação eram muito precários, piorando o aspecto da evolução da mesma. Além da idéia comum na época de que fossem advindos de castigos porconduta moral ou castigo de Deus.

 

Portanto, era um quadro que além de proporcionar um grande sofrimento, incapacidade laboral, contaminação familiar e da comunidade, requeria do médico um conhecimento que ele não tinha. Era realmente um quadro sério, misturado com uma série de entidades que se sobrepunham ao aspecto clínico. Para piorar esta situação, foi a época das guerras napoleônicas nesta região.

 

É neste aspecto que devemos visualizar Samuel Hahnemann (1755-1843) [5] [6]se deparando com este quadro trágico no fim do século dezoito, início do dezenove. Um quadro clínico complexo, crônico e grave. Os resultados dos tratamentos na época não mudavam muito a evolução da mesma. E é isto que ele descreve na sua conceituação de psora[ii] no Tratado de Doenças Crônicas [7] [8]. Inclui sinais e sintomas de uma série de quadros nosológicos médicos misturados para a formação da sua nosologia própria [9]: o miasma [10], doença única no início, acrescentando a psora, a sycose e a syphilis posteriormente [11]. A psora [12] seria a principal doença advindo do miasma crônico de origem não venérea. Nela ele inclui praticamente tudo, atribuindo ser a sarna (Krätze) [13] a origem de tudo [14] [15].

 

Hahnemann havia, em 1790, desenvolvido a teoria do similar, na sua falácia do uso da China em si mesmo. Em 1801 defendia que a simples diluição aumentava o efeito do remédio [16] [17].Publicara um pequeno ensaio, 'On the Effects of Coffee from Original Observations' [Die Wirkungen des Kaffee's] (Leipzig, 1803) que daria as primeiras tintas [18] da sua teoria que viria a se chamar de psora [19] (1828) como sendo causado pelo consumo de café (Coffea arabica) [20] [21]. Em 1810 publicara a primeira edição do seu livro máximo, o ORGANON [22]. Para justificar a sua teoria, abandonara [23] e combatia a patologia e a nosologia científica. Afirmara, em mais uma de suas falácias, que a doença não era para ser entendida, mas para ser tratada apenas [24]. Estabelecera a idéia de que os medicamentos teriam uma ação dinâmica, like-spirit, imaterial. Desconhecia na época a ação bioquímica dos medicamentos e atribuía a eles esta ação, não mágica, mas por analogia imprópria, com as propriedades magnéticas ou com a energia da mecânica gravitacional dos planetas. Portanto, o efeito curativo não era etiológico, mas numa fantasia que fazia da ação dos mesmos [25] [26]. Daí que ele parte para a diluição [27] e finalmente vinte e cinco anos após [28], a dinamização [29], que seria a forma de retirar esta "energia curativa", esta energia dinâmica, like-spirit, da medicação bruta, na crença falaciosa de que a ação medicamentosa seria apenas dinâmica e seria isolada pelo sacolejar violento na diluição [30].

 

No seu entendimento, a doença também era devido à contaminação da "energia dinâmica" da doença na "energia vital" da pessoa, a principal causa da mesma, pois não reconhecia a causa etiológica (Tollen causam) e nem a causa material (Materia peccans) [31]. em 1803 tinha está idéia de transmissão à distância dos males em relação aos bebedores de café [32]. Exemplifica isto novamente ao escrever na Sexta Edição e última do Organon (1921), escrito no fim da vida vivendo em Paris (1843), que uma criança com varíola ou sarampo passa para a outra sadia por efeito "dinâmico" da doença, como um ímã transfere para uma agulha de aço o seu magnetismo [33] sem, contudo, nada de material ter sido transferido entre elas. Praticante de mesmerismo [34] [35], pois era adepto das teorias de Franz Anton Mesmer [36](1734 - 1815), na crença de que esta "energia" podia ser transferida do terapeuta equilibrado para o paciente carente pelas mãos movimentando-se (capítulo 288 [37], sexta edição Organon) [38].

 

O parasita da sarna havia sido reconhecido cientificamente em 1834 por Simon François Renucci, nascido na Córsega, realizado na Sorbone, mas continuava a não ser aceito por muitos médicos. Hoje em dia temos uma compreensão maior da convivência generalizadas com os ácaros em muitos meios, desde os úteis a vida humana aos causadores de doenças em nós e nos animais. Até mesmos existem ácaros parasitando ácaros. Lesões da pele pela penetração do minúsculo aracnídeo, fazendo túneis para desovar e para se alimentar, lesavam a pele, eclodindo os ovos aumentava a infestação, deixando-a desprotegida pela presença do estafilococos e estreptococos penetrarem no organismo por .

 

Apesar de Anton van Leeuwenhoek (1632-1723) ter iniciado a investigação do mundo microscópico, a presença das bactérias como entidades oportunistas era ainda muito mais desconhecida. Pois a sua identificação por Pasteur e seguidores se daria a partir de 1879, mas a sua total importância clinica ainda levaria muitas décadas para ser totalmente entendida [39]. Inicia-se a criação da microbiologia nas faculdades. Sir Alexander Fleming (1881-1955), bacteriologista do St. Mary's Hospital, de Londres, descobriria a penicilina acidentalmente em 1928 [40]. Mas em 1940 atingiria a produção industrial.

 

 

 

 

Estes agentes seriam os principais causadores da ação desastrosa para a saúde ao ocasionarem a infecção de pele, cardiopatia reumática, endocardite, febre reumática, coréia de Sydenham, glomerulonefrite difusa aguda pós-estreptococos, nefrites, pneumonias, erisipela, escarlatina, sepsis, bacteremia em que o organismo podia contar com a Vis MedicatrixNaturea para ajudá-lo, pois além de não serem suspeitados, não se contava na época com nenhum tratamento efetivo para eles. A presença das lesões e a sintomatologia, que retornava de tempos em tempos, davam a idéia de que algo havia sido acrescentado ao paciente após ter adquirido a sarna, e acrescentava realmente, mesmo se esta fosse eliminada do exterior da pele. Daí a idéia de que a doença teria origem "dinâmica", like-spirit, pois nada podia ser visto, se nem mesmo o Sarcoptes, que está no limite do macroscópico era entendido. Doenças sistêmicas ocasionadas por enfermidades de pele levavam a idéia de que as "doenças" tinham origens internas, se manifestando para o exterior, pois as lesões sistêmicas não tinham entendimento fisiopatológico na época.

 

 

Este erro grosseiro baseado numa epistemologia falsa levou Hahnemann a elaborar a teoria da Psora. Hoje em dia consideramos que a idéia da sua teoria ter origem no Sarcoptes seria tola, mas ao não ter acesso à epidemiologia, microbiologia, patologia, fisiologia, parasitologia, e a gravidade das conseqüências para a infestação crônica, o levaram a analisar a realidade deste modo. Ele via tudo como uma coisa . A sua mente propensa a fantasias, a sua idéia de existir um miasma, sua adoção do swedenborgianismo, sua visão deísta para explicar o mundo, sua fantasia de mesmerismo de que fora um grande propagador [41], de que o "magnetismo" se propagava de uma pessoa a outra, sua idéia mágica da origem "dinâmica" das reações químicas e da transmissão das doenças, do seu afastamento da ciência e da medicina da época [42], sua intolerância a pesquisa e a tecnologia [43], ao não aceitar opiniões contrárias [44], nem mesmo de simpatizantes [45], levaram a esta teoria mirabolante, sem contato com a realidade e que se contrapõe totalmente com as evidências epidemiológicas. O que se evidência pela falta de reprodutibilidade em TRIALs dos seus tratamentos.

 

Ao testar o Psorinum, da qual das lesões de escabiose era retirado o material purulento contaminado com estreptococos e estafilococos para se fazer a solução mãe, o paciente testado apresentava as doenças típicas destas bactérias, como amidalite, doenças de pele e intestinais. E quanto mais testada, é óbvio de que os sintomas subjetivos e inconsistentes com a origem bacteriana das doenças vão sendo acrescentados, pois vai acrescentando a subjetividade de cada um dos "testemunhos" chamados provings, chegando a uma média bem boa da subjetividade coletiva com 550 sintomas [46]. Mas nada disto tem valor para tratar doenças. É apenas uma falácia. Não tem sentido tratar pelos iguais e muito menos pelas semelhantes subjetividades excêntricas e raras, o princípio do similia similibus curantur.

 

Hahnemann escreve no ORGANON o termo alemão de Krätze [47]. O homeopata David Little [48] defende que o termo foi erroneamente traduzido como sarna, scabies [49], que ele não queria usar este significado na verdade. Defende que ele conhecia o agente biológico, mencionando várias referências disto. O que me parece inconsistente. Primeiro, alegar que um lingüista [50] [51] usou o termo tradicional de Krätze [52] quando queria dizer "doença dinâmica de origem vibracional", e resolveu usar este antigo termo com amplo significado tradicional [53]. Segundo, a entidade, como exposta no início do texto, mereceria sim a atribuição de uma série de malefícios aos pacientes [54] [55] que hoje são minimizados pela evolução social e o entendimento científico. E, finalmente, na sua tese na última edição do Organon, escrita após o Tratado das Doenças Crônicas, escrito em alemão, ele é explicito ao defender a natureza imaterial das enfermidades, não aceitando o ponto de vista da patologia em nenhum momento [56]. O que é seguido pela maioria dos autores homeopatas [57] [58] [59] [60] [61] [62] [63] [64].



[1] Organon der rationellen Heilkunst ("Órganon da Medicina Racional"). Leipzig, 1818.Christian Friedrich Samuel Hahnemann

[2] Etimologicamente em grego psoria significa prurido, sarna "terminologia imprópria para nossa época, conhecida como Alphos, Psora, Síndrome de Wilan-plumbe, lepra vulgar.

Psoríases

http://www.odonto.unam.mx/patobuc/octubre-psoriasis.PDF

[3] "Sarcoptes scabiei hominis est responsable de la gale. Le terme de gale, longtemps écrit avec deux "l" est d'étymologie obscure. Les Grecs l'appelaient psora (de pso je frotte), les Latins scabiès (de scabere gratter), terme conservé par les Anglais, les Allemands Krätze, les Espagnols sarna ou rona, les Provençaux rogne et en langage vulgaire gratelle."

Histoire du sarcopte de la gale

Michel JANIER
Hist.Sci.Méd., 1994 , 28

http://www.bium.univ-paris5.fr/sfhd/ecrits/sarcopte.htm

[4] "II is necessary to signal that the Lévitique speaks of leprosy of the clothes and houses that remains mysterious for us, but that are described with strength details. Was it about mildews, of mushrooms? The leprosy was considered as God's malediction and bound to the sin. Currently some homeopaths attach a big importance in the cutaneous demonstrations that let in the organism and at the descendants of the difficult toxins to eliminate. It is otherwise the reason of unexplained morbid phenomena. Léon Vannier, a homeopathic school chief, explained this named state the Psora while going back up very far until the biblical leprosy..

In Alexander's translation (The Septuagesit), the leprosy is called Psora agria, the Vulgate translates by Scabies Jugis. Jonathan, the interpreter of the Talmud explains that it is a dry itch spread to the whole body. Moïse, 3.500 years ago, use the Yalephed expression to designate the lichen, the sores, the impetigo, the herpes, the psoriasis (tetter in English. To see Rosenmü