Erro
de Terapia
Professor Doutor Renato
Zamora Flores
19 de Junho de
1998
Nunca havia visto um caso de
difteria até o último ano de curso. Já minha avó, no início do século, perdeu
dois filhos com esta infecção que era chamada de crupe ou garrotilho.
Uma
bonita jovem, militante de um dos Centros Acadêmicos da UFRGS, num certo dia,
percebeu que estava com uma discreta dor de garganta e um pouco de febre.
Ainda éramos um pouco hippies então. Assim, sua opção de tratamento foi a
homeopatia e, pior, por automedicação. Que mal poderia haver? Medicamentos
homeopáticos não produzem qualquer dano. De fato, não produzem, igualmente,
benefícios e muitas vezes atrasam o diagnóstico de uma doença que poderia ser
tratada com medicamentos de verdade.
Na semana seguinte estava pior,
desanimada e com dificuldade para respirar, mas continuou firme nas gotinhas e
nos glóbulos, basicamente por uma questão ideológica. Era contra a medicina
capitalista.
Não se alimentava corretamente e sua consciência foi ficando
tão alterada que uma de suas colegas, com quem dividia um apartamento, percebeu
a gravidade da situação e resolveu chamar alguns amigos recém-médicos,
conhecidos de reuniões e festas estudantis.
A jovem já foi conduzida
inconsciente para o Hospital de Clínicas de Porto Alegre. As bactérias em sua
garganta já estavam produzindo grandes quantidades de uma toxina potente que
afetava , agora, todo o seu corpo e mais gravemente, seu coração. Quando chegou
a receber a medicação correta, fortes doses de antibióticos, já era
tarde.
Até hoje não vi outro caso de difteria. Praticamente todos foram
vacinados na infância. A estudante, originária de um lugarejo no interior do
estado, aparentemente não fora imunizada nem contra a difteria nem contra idéias
cretinas. No seu caso, foi uma combinação letal.
Flores, RZ. Três historinhas de arrepiar. In Souza, B,
Neubarth, F e Cunha, F. Médicos (Pr)Escrevem 4 - Os 100 anos da Faculdade de
medicina da UFRGS: 1898-1998. Porto Alegre: AGE/AARIGS, 1998. p.
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