Homeopatia
A Mesma Velha Doutrina das
Assinaturas
Ou
porque
a
homeopatia jamais vai funcionar
Origem
da idéia A Doutrina
das Assinaturas (sinagtures, Die signaturenlehre) tem origem em tempos
imemoráveis [1] e até nos dias atuais se imiscui entre as crenças
populares pela sua fácil assimilação pelas pessoas comuns, ou até mesmo dentro
das universidades. Encontramos ainda entre os índios, como entre os místicos e
nas religiões. Ela originou-se de antigos conceitos para uso de plantas como
alimentos e remédios [2] , numa fase de falta de conhecimento científico. A
idéia era de que estariam escondidos na natureza, na forma de símbolos,
mensagens divinas para a cura das enfermidades conforme a forma, a cor da fruta
(beterraba para anemia), no desenho da folha (hepática para o fígado), do
formato da planta. Theophrastus Bombastus von Hohenheim (1493-1541),
conhecido como Paracelsus, médico medieval, foi o primeiro a formular mais
aprofundados conceitos da doutrina [3] , que se espalhou rapidamente entre os médicos da
época. Sua idéia era achar o remédio próprio da pessoa (o arcanum) [4] [5] [6] que poderia curá-lo. Perseguiu também a pedra
filosofal para a cura de todas as doenças. Vários centros de alquimia se
formaram na Europa medieval buscando este intento, sendo que Meissen, na Saxônia
(Alemanha), cidade natal de Friedrich Christian Samuel Hahnemann
(1755-1843), foi um destes prósperos lugares. A porcelana do local,
resultado das pesquisas de alquimia, viria a ser famosa, fabricada no castelo em
que Hahnemann aprendeu pelas mãos do seu pai a arte da pintura e do preparo das
tintas. As idéias de Paracelsus foram incorporadas pelo místico Jacob Böehme
(1575-1624) [7] que atribuiu a tudo mensagens divinas para serem
descobertas, idéias estas expostas na sua obra Signature Rerum (a
assinatura de todas as coisas) [8] . O fundamento da doutrina das signatures é uma idéia
de se resolver questões naturais por meios mágicos, descobrir relações de causa
e efeito sem passar pelo crivo da experiência. Ela pode ser facilmente
construída, como o foi, em relação à cor (externa ou interna), à forma do fruto,
da folha, da planta; a relações cósmicas e astrológicas, do sabor ou de outras
qualidades; a colheita das plantas deveria ser à noite ou colhidos ao sereno da
manhã, na madrugada antes do dia nascer, em dia santo, ou no equinócio ou
solstício. Em dias de lua cheia ou sem lua [9] . Em locais mágicos, energéticos, por relações
cabalísticas ou por pessoas "especiais", sacerdotes ou bruxas boas (?) ou más.
As idéias divinatórias são prenhes destas relações, como o Tarô, o jogo de
Búzios, a bruxaria ou a astrologia, justamente por se tratarem de matéria
fantasiosas sem relação com o mundo real. Mas o que caracteriza realmente uma
doutrina de assinaturas é a sua falta de relação com o que trata, a não ser pelo
pensamento mágico. A busca de uma lei universalA idéia de Samuel Hahnemann na construção da sua
doutrina inicia-se na sua suposição de que as medicações teriam sua ação devido
a produzirem nas pessoas sadias os sintomas que deveriam tratar pela medicina da
sua época. Nunca ele conseguiu este resultado. Nem mesmo com a ingestão da
infusão da casca da árvore Cortex peruvianus (chamado China) em si, no fundo do
seu quintal, em 1790. Quem ler a descrição da China na Materia
Medica (livro que descreve os sintomas apresentado pelas pessoas sadias)
escrita por ele jamais diagnosticaria malária ou arritmia cardíaca (tratados
pela quinina [para malária] ou quinidina [para arritmia], isoladas da
China). Publica em 1796 a descoberta das assinaturas no jornal do Dr
Christoph Wilhem Hufeland (1762-1836) [10] "Versuch über ein neues Prinzip zur Auffindung der
heilkräfte der Arzneisubstanzen nebst einigen Blicken auf die bisherigen"
(Ensaio sobre um Novo Princípio para verificar o Poder Curativo das Drogas, e
Algumas Observações dos Princípios Prévios, Journal der practischen Arzneykunde
und Wundarzneykunst)". Seus seguidores se sentem frustrados por não terem sido
descobertos os registros destes experimentos. Mas é clara a explicação. Para
alguém prolífico e persistente em anotar e escrever tudo, fica evidente que ele
simplesmente nunca fez experimentos além dos prüfungs em si e na sua família. Partindo da falácia
que descreve com a ingestão das dracmas da China, ele simplesmente
generalizou que houvesse descoberto um princípio universal e se apegou a ele a
vida toda, negando os insucessos que aconteciam. Sua explicação para a idéia era
uma volta pré-hipocrática na crença em Deus que obrigatoriamente teria que ter
deixado uma maneira de curar os males das pessoas como faria um pai amoroso para
com seus filhos [11] , como escreveria para o Dr Christoph Wilhem
Hufeland, inventor da macrobiótica [12] , seu amigo e editor. Experiências alheias ao objetivo: o
doente Passou os
próximos 15 anos realizando experiências em pessoas sadias para desenvolver o
seu livro de prescrição baseado em que já tinha descoberto o verdadeiro
princípio universal e curativo. A verdadeira signature [13] que se encontrava escondida nas coisas dos três
reinos, informações só reveladas ao se conseguir envenenar as pessoas sadias,
sem a mínima relação com a fisiopatologia das doenças a ser tratadas ou das
propriedades farmacológicas das substâncias, animais ou plantas tóxicas. Neste
período, percorre várias cidades, perambulando entre a miséria e o desespero [14] , trabalhando como tradutor. Em 1803 supõe ter
encontrado a causa de todas as doenças no café [15] , mais uma generalização das que faria sempre, como
faria atribuindo a sarna em 1828, na construção da busca dos métodos mágicos,
através de falsas experiências, que tornassem desnecessário o conhecimento
médico e a pesquisa. A chave da prescrição, o álibi mental da crença curativa.
Café como a
causa dos males. Em 1805
(ou 1806?) publica o esboço das suas idéias no opúsculo "Heilkunde der
Erfahrung" (A Medicina da Experiência) [16] , em que defende um esboço da doutrina da similitude
da cura por dois agentes semelhantes [17] no mesmo organismo. Dois estímulos semelhantes não
poderiam existir no mesmo organismo e o mais forte curaria o primeiro. Esboça
uma série de analogias fantasiosas sem base epidemiológica, mas baseado na sua
opinião de que a varíola erradicaria a vacínia, idéias atualmente totalmente
superadas e pueris (como o foi considerado na época [18][19]).
É o início do pensamento da signature [20] da doença que deveria buscar nas experiências das
drogas para descobri-las. Todas as coisas tinham uma capacidade de adoecer a
pessoa [21] . E só na pessoa sadia se descobriria a signature
pura [22] da mesma sem a interferência dos sintomas da doença
que o enfermo possuía. Nesta idéia fantasiosa inocularia varíola em pacientes
com sarampo como remédio [23] . Publica neste mesmo ano a primeira relação de 27
prüfungs [24] testados em si e nos seus pobres filhos.
As coisas
não funcionavam bem Finalmente, quando começou a usar na prática, após a
edição do primeiro "Organon der Rationellen Heilkunde" (Organon Da
Medicina Racional) [25] , em 1810, se deparou com o fracasso total do
método, já esperado partindo de algo fora da realidade. Começa então a diluir
para diminuir a ação dos venenos que estava usando de modo irracional: não por
sua ação farmacológica, que desconsiderava totalmente (as coisas no mundo seriam
mágicas, dotados de energias espirituais, literalmente [26] [27] ), mas baseado na correspondência da
signature [28] descoberta do preparado tóxico e a signature
subjetiva [29] da "totalidade" do doente sem relação como o
seu mal, a etiologia, que não diagnosticava. Aí as coisas começavam a melhorar,
pois o paciente não envenenado podia se recuperar sozinho, sem alteração da sua
história natural da doença. Por isto que criou o conceito de que o paciente
podia piorar, melhorar ou ficar igual pela ação dos preparados sem nenhum
princípio ativo já a partir da 12° diluição centesimal. Quando retrucado de que a sua
diluição deixaria uma molécula da solução inicial isolada na quantidade de
diluente do tamanho do lago Geneve, passa a fazer sacudidas com a mão batendo
num livro, para não doer tanto, fechando a boca do frasco com um pedaço de
couro. Sacudia cem vezes a cada diluição até a cifra de 30 repetições (3.000 no total) para liberar o
espírito contido. Estas idéias espirituais que viriam a formar as atuais
bases do espiritismo Kardecista (Allan Kardec 1804-1869). [30] Nesta
idéia de semelhante contesta uma publicação de 1816 do prof Carl Heinrich
Dzondi (1770-1835), de Halle, que defendia o uso de água fresca para o
tratamento das queimaduras, e Hahnemann, com seu linguajar de deboche habitual,
defende o uso de calor [31] ou álcool [32] pela causa semelhante. A associação com leigos que
acreditavam
Mesmo assim
as coisas não iam como sonhou. Continuavam a não serem curadas as doenças que
não eram auto limitadas, recidivas ocorriam, estados eram agravados ou enfermos
atingiam o êxito-letal. Desenvolveu uma nova teoria para encaixar na sua
doutrina para resolver estas numerosas falhas que levaram o primeiro hospital
homeopático do mundo a fechar em Leipzig em 1844. Traidores, vociferaria ele! Em
1828 publica a primeira edição do "Die chronischen Krankheiten, ihre
eigentümliche Natur und homöopathische Heilung" (As Doenças Crônicas, sua
natureza peculiar e sua cura homeopática) [33] , totalmente dissociado da ciência da época, escrito
junto com o advogado Heinrich A. Von Gersdorff, (1793-1870) [34] , já que havia se isolado dela, (e que passa a
combater com fúria), apresentando uma nova divisão dos males. Agora não mais uma
doença única, (se você estava doente tinha um miasma, se não, estaria
sadio) o miasma agudo ou crônico, mas coloca subdivisões arbitrárias
chamando-as de psora (coceira), advinda da supressão da sarna
(Krätze), a Sycose e a shyphiles (não confundir com a
sífiles originada pelo treponema). A segunda edição do tratado ele
escreve junto com o leigo George Heinrich Gottlieb Jahr (1800-1875).
Assim como também o foram os autores clássicos construtores da doutrina: conde
Adolphus Graf zur LIPPE-WEISSENFELD (1812-1888) [35] , Barão von Clemens Maria Franz BÖNNINGHAUSEN
(1785-1864) [36] , General Conde Iseman von KORSAKOFF
(1788-1853). [37] Sintomas semelhantes sem correspondências fisiopatológicas
Mas o que é, sem dúvida
alguma, a lei descoberta por Hahnemann, a lei do semelhante,
inspirada na expressão latina cunhada por Paracelsus: Similia similibus
curantur. Não passa de uma nova roupa para a Doutrina das signatures [38] [39]
[40] , baseada em revelar o segredo das drogas pela
realização de sessões de tortura chamadas de prüfungs, sem nenhum
ensinamento científico ou médico, a não ser para os relatos serem usados na
construção dos livros de prescrição na homeopatia, sem relação com a etiologia e
a fisiopatologia, e na elucubração dos mesmos tentando acrescentar à
subjetividade dos relatos dos sacrificados, sua própria subjetividade ao tentar
criar "drug pictures" [41] (quadros sintomáticos), correspondências, núcleos de
sofrimento e ilações para encontrar os quadros semelhantes das pessoas e dos
nossos mais semelhantes ainda de quatro patas (ou até de vegetais). Quando não
dos dentes, usado pelos dentistas homeopatas. Esta inocuidade consubstancia-se
com a inutilidade total dos livros de Matéria Médica e Repertórios
para a ciência e a medicina em particular. Só tem uso na construção dos livros
de prescrição pela similitude das singatures [42] [43] . Semelhante sintoma para semelhante
descrição sem base fisiopatológica entre si. Há uma discussão, na verdade, entre
os homeopatas puristas, que rejeitam a visão das "drug pictures" [44] insistindo em prescrever pelo sintoma similar
apenas, rejeitando a visão das signatures totais [45] . Mas o real sentido das signatures se dá no uso de
prescrição sem relação com a fisiopatologia e a com farmacologia, e não se é por
mensagens internas ou externas, cor, formato ou cheiro, ou seja, no caso,
acontece se usando as substâncias para descobrir subjetividades [46] na pessoa sadia intoxicada. Após a morte de
Hahnemann, seus seguidores idealizaram tentativas de facilitar ainda mais
a prescrição para se abandonar o repertório [47] , receitando pelo jeitão (tipologia) do
paciente com quadros memorizados das descrições [48] . Mesmo a Iridologia (diagnóstico pela íris),
pseudociência inventada por um homeopata, Dr. Léon Vannier
(1880-1963), autor da idéia da tipologia [49] para a prescrição, tem este fito. Existiria algo a
mais para descobrir além disto? Certamente não. A não ser porque pessoas se
aferram nas suas ilusões resistindo contra qualquer demonstração da ineficácia
do que afirmam.
"Fora deste sistema sublime, pairando além de toda
experiência, a prática homeopática não pode obter nada vantajoso para o
tratamento real. Assim continua seu curso confiante na cabeceira da cama do
doente de acordo com a prescrição tradicional de seus livros contando-lhes como
os homeopatas têm até agora tratado, e em conformidade com o método de suas
autoridades práticas, indiferente, como eles, sobre o ensino da experiência
orientado pela natureza , indiferentes da razão de seu tratamento, e muito
contentes com a chave da prática fácil - o livro de prescrição".
Parafraseando Hahnemann. PREFACE TO THE SECOND EDITION, SAMUEL HAHNEMANN,
LEIPZIG, end of the year 1818
Pulmonaria officinalis [7]
para afecções de pulmão por suas folhas apresentarem manchas brancas como um
pulmão doente.
BMJ: Homeopathy: the old and mouldy doctrine of
signatures!