

OFJOR CIÊNCIA
HOMEOPATIA NA MÍDIA
O signo de uma
terapêutica
Daniel Sottomaior (*)
Descobrir a gota ocasional de verdade no meio de um grande oceano de confusão e mistificação requer vigilância, dedicação e coragem. Mas, se não praticamos esses hábitos rigorosos de pensar, não podemos ter a esperança de solucionar os problemas verdadeiramente sérios com que nos defrontamos – e nos arriscamos a nos tornar uma nação de patetas, um mundo de patetas, prontos para sermos passados para trás pelo primeiro charlatão que cruzar o nosso caminho. Carl Sagan, O mundo assombrado pelos demônios
Segundo alguns teóricos
da comunicação, é impossível
não comunicar, pois
mesmo a ausência de mensagens
é, em si, uma mensagem.
Todo mundo que
já esperou um telefonema
do namorado sabe disso. Em
recente artigo ao Observatório
da Imprensa, a homeopata
Graciela
Pagliaro abordou rapidamente a questão
da homeopatia na mídia,
e aproveitou o espaço para discorrer
sobre os supostos benefícios
dessa terapêutica. Seu
silêncio sobre as críticas
que a homeopatia tem
recebido é muito eloqüente
e só agrava o problema
da aceitação pública da prática,
acusado pela própria
autora.
Assim como todos
que têm algo a vender,
a homeopata deseja visibilidade.
Mas, curiosamente, ela
não se dispõe a discutir o mérito
da crítica ou expor
seu produto em
detalhe. O máximo que
faz é apontar "vários trabalhos"
(sem dizer quais
e onde foram publicados) dos próprios
interessados – a Associação Médica
Homeopática Brasileira
– que apóiam seu ponto
de vista. Limita-se a afirmar: homeopatia
é muito bom, todo
mundo sabe disso, os homeopatas
aprovam, podem comprar. Por quê?
Seu argumento é de
que as polêmicas
"nada constroem". Isso
é bastante coerente com
a doutrina homeopática,
que desde sua
criação não mudou nada,
ao contrário de qualquer
campo científico. As polêmicas
são importantes e
construtivas somente para quem
não tem nada a esconder
e para quem deseja
conhecer seus erros.
É o caso da ciência,
e certamente não é o caso
da homeopatia. A ciência
busca avidamente seus
próprios erros, porque
somente assim pode eliminá-los e prosperar.
A pseudociência, por outro
lado, opõe-se ao escrutínio.
Quando não é bem
aceita, criam-se teorias conspiratórias para
justificar o fracasso.
A homeopata aponta "altíssimos interesses
econômicos" para justificar
a ausência de interesse
em ampliar o uso
dos compostos homeopáticos
e "baratear a saúde". Isso
é só uma maneira de escamotear
as deficiências do método.
Não é preciso dinheiro
para explicar o desinteresse
comercial por uma prática
que é ineficaz. Essa ineficácia
é a raiz de todas as críticas
e problemas de aceitação, e é isso
que os homeopatas tenazmente
se recusam a comentar.
Mas imaginemos por
um instante que
a homeopatia fosse eficaz.
A história médica registra
muitos casos em
que tratamentos caros
foram substituídos por tratamentos
baratos, então como
explicar que somente
a homeopatia permaneça injustiçada,
após 200 anos de insistência?
Por exemplo, os
caríssimos "pulmões de aço"
desapareceram do mercado porque,
com o uso de vacinas
baratas, a poliomielite
foi erradicada e portanto
não há mais usuários
para esses aparelhos.
Ironicamente, muitos homeopatas
se opõem à vacinação – reservadamente, para
não infringirem a lei
–, apesar da alegação (falsa)
de que a vacina usa
a lógica homeopática.
Se realmente houvesse tratamentos
mais baratos e tão
eficazes quanto os disponíveis
atualmente, qualquer investidor
poderia fazer rios
de dinheiro com essa oportunidade.
As próprias companhias farmacêuticas poderiam migrar
para o novo ramo,
muito mais simples,
muito mais barato
e sem risco nenhum.
Muitos medicamentos são
caros porque exigem
pesados investimentos em
pesquisa, que nem
sempre resulta em medicamentos,
ou porque seus
insumos são caros.
Mas nenhum desses problemas
atinge a homeopatia.
Água
com
"passado"
A prática da homeopatia não
requer que se conheça absolutamente
nada sobre o corpo
humano e sua fisiologia pois, como
qualquer outro tipo
de sistema mágico, a homeopatia
não muda desde
que foi criada. Basta
saber hoje o que
se sabia então, portanto
qualquer pesquisa é
desnecessária. E o que parece barato
para o consumidor é na verdade
caríssimo. Um frasco
de um preparado homeopático
contendo 15ml sai por pelo menos
R$ 5. Isso significa que
o litro custa nada
menos que R$ 330. Para
soluções mais
diluídas, o litro do preparado
custa R$ 850, algumas centenas
de vezes mais do que
o seu insumo. Seria um
preço razoável a se pagar
se o produto fosse um
medicamento. Mas não
é. Os primeiros reais
dessa quantia se referem à matéria-prima.
As centenas seguintes,
ao trabalho de diluir e sacudir
algumas vezes.
Devido às altas diluições
utilizadas pela homeopatia,
minúsculas quantidades
de princípio ativo
podem render fortunas. E é por
isso que todos
os "medicamentos" custam a mesma coisa,
afinal a quantidade do principal
ingrediente é desprezível. Oscillococcinum, por exemplo,
é um dos mais populares
preparados homeopáticos,
freqüentemente vendido a 200C – ou
seja, com uma parte
de princípio ativo para
cada 10^400 (o número
1 seguido de 400 zeros) partes
de solvente. Seu princípio
ativo é um
politicamente incorreto fígado
de pato. Em fevereiro
de 1997, a revista U.S. News
& World Report fez
as contas e descobriu que
foi necessário somente um
pato por ano
para alimentar todas as vendas,
de UR$ 20 milhões, do produto
nos Estados Unidos em
1996.
Resultado: em
2000, os americanos gastaram US$ 400 milhões
em produtos homeopáticos.
Em 1998, os europeus
gastaram mais de US$ 1 bilhão.
Em 1997, os consumidores
americanos gastaram do próprio bolso
(fora dos sistemas de
saúde) nada menos
que US$ 27 bilhões com
terapias alternativas.
Foi um gasto maior
do que o correspondente
com médicos no mesmo
período. O barato para
o produtor acaba saindo bem caro
para o consumidor.
A polêmica subsiste porque,
infelizmente, ainda é
necessário afirmar que
não se pode vender como
se fosse remédio uma substância também
conhecida por água
destilada. É absurdo alegar
que a resistência a essa prática
se deve a "interesses econômicos".
As farmácias homeopáticas vendem, sob
vários nomes e preços,
exatamente a mesma água.
A classificação de cada frasco,
assim como o lucro
auferido com ele, se
baseia na alegação de que cada
água tem uma história
diferente. Eu repito:
as farmácias homeopáticas vendem água
com status de remédio,
e ainda alegam que os
diferentes preços e nomes
correspondem a um "passado"
diferente de cada água.
(*) Engenheiro, mestre e doutorando em engenharia pela USP e presidente da ONG Ciência&Cidadania; e-mail
<cienciacidadania@cienciacidadania.org>
